07/06/2026
O DESGASTE DO PODER
A alternância de poder não é apenas um princípio democrático, é o único remédio eficaz contra a arrogância palaciana e a inevitável inércia burocrática.
No primeiro mandato, o governante opera sob o medo salutar do julgamento popular, mostrando-se permeável ao diálogo e fingindo ouvir lideres partidários e opositores.
O asfalto brota milagrosamente nas avenidas e as fitas de inauguração são cortadas com entusiasmo coreografado.
Tudo muda na manhã seguinte à vitória que lhe garante mais quatro anos no topo do funcionalismo público.
A reeleição transforma o servidor temporário em um monarca absolutista com prazo de validade, livre da necessidade de seduzir o eleitorado.
Livre das amarras das urnas, o gestor frequentemente demite a autocrítica e contrata a soberba.
É nesse processo de isolamento que o líder comete o seu erro mais fatal... chuta a escada que o subiu e vira as costas para quem o carregou nos ombros.
Esquecer as bases que pavimentaram seus primeiros passos na política é assinar a própria sentença de morte institucional, pois nenhum império se sustenta no topo cuspindo nos alicerces que o mantêm longe do chão.
Sem os velhos e leais companheiros de trincheira, o reeleito vira um fantasma isolado em gabinetes vazios de lealdade, descobrindo que o ostracismo é o preço exato da ingratidão.
A economia sente o baque imediato dessa ressaca eleitoral, cuidadosamente planejada para anestesiar as contas públicas.
O teto de gastos é invariavelmente dinamitado no ano anterior para garantir o voto que agora custa caro ao contribuinte. A conta do populismo fiscal chega pontualmente, trazendo inflação maquiada e juros nas alturas.
Investidores fogem ao perceberem que o plano econômico de longo prazo foi substituído por um plano de sobrevivência dinástica.
Projetos inovadores dão lugar ao loteamento descarado de cargos para pagar as dívidas da campanha, e a eficiência administrativa vira lenda urbana.
Nunca se viu um segundo mandato que não fosse uma reprise deprimente, arrastada e desprovida de qualquer criatividade. O cidadão descobre, tarde demais, que comprou um produto estragado com prazo de garantia estendido pelo próprio voto.