01/08/2025
Todo dia a estudante Júlia Couto, de 21 anos, sai de casa, em Vargem Grande, às 5h. Antes do sol nascer, caminha sozinha até o ponto de ônibus por 20 minutos, para iniciar uma viagem, que inclui um coletivo e o metrô, para atravessar a cidade até o campus da Uerj, no Maracanã, onde cursa o 4º período de Pedagogia. Já na volta para a Zona Oeste, o trajeto tem ainda um ônibus, além de dois BRTs, com destino aos empregos — é atendente numa cafeteria e dá aulas de dança — que antecedem seu retorno para casa por volta das 21h. Em meio a essa rotina corrida, a jovem se viu “desesperada”: beneficiária de gratuidade (é universitária e se encaixa nos critérios de renda), ela relatou ter enfrentado a demora para conseguir ter seu cadastro aprovado para usar o Jaé , que, neste sábado, passa a ser o único bilhete aceito nos modais municipais do Rio (ônibus, BRT, VLT, vans e “cabritinhos”).
2 de agosto, JAÉ?
Suas queixas chegaram até Eduardo Paes, alvo de seus vídeos — gravados sem roteiro, a partir de uma ventosa que prende na parede, publicados no TikTok e no Instagram () —, que colecionaram centenas de milhares de visualizações. Após alguns palavrões, palmas para chamar atenção, assim como críticas ao “nome brega” escolhido para o substituto do Riocard e ao “berro” de “gratuidade liberada” emitido pelos novos validadores, ela foi ouvida pessoalmente pelo prefeito no início de julho, quando ele entregou em mãos o novo Jaé de Júlia.
Júlia Couto com o seu Jaé, cartão que recebeu das mãos do prefeito Eduardo Paes — Foto: Ana Branco / Agência O Globo
O convite veio da equipe de comunicação de Paes, que entrou em contato com a jovem através do chat do Instagram, rede social em que acaba recebendo outras reclamações sobre a cidade, como se fosse “porta-voz do prefeito”.
—Toda a conversa que tive com ele foi no meio das câmeras. Conversei bastante, fiz cobranças, até sobre as condições dos ônibus, e ele conversou comigo sobre a reforma da frota (com a nova licitação, marcada para novembro). Também perguntou sobre mim, onde eu morava, e falei sobre as condições daqui — conta Júlia, que foi recebida entre uma reunião e outra do prefeito. — Quando terminou a gravação, falei “Olha, acho que estou fazendo o trabalho de alguém daqui” — brincou.
Riocard: saiba como pedir reembolso do saldo existente no cartão
A publicação original, nos perfis de Paes, teve 2,1 milhões de visualizações (somados X e Instagram), excelente para a influencer que, além de ter seu problema resolvido, ganhou visibilidade. Inicialmente, ela, focava no TikTok, onde coleciona 45,6 mil seguidores, com conteúdos sobre a vida universitária e que, após as queixas sobre o Jaé — ela se apresenta como “a rainha da reclamação” — viu a necessidade de migrar também para o Instagram, que até então era de uso pessoal, rede com 3,2 mil seguidores atualmente.
O burburinho rendeu e ela também foi convidada a gravar um vídeo semelhante com o pessoal da Riocard, empresa que havia sido criticada pelo prefeito, que definiu as pessoas que controlam a empresa como “mafiosos”. Mas o que seria uma mediação rendeu críticas a Júlia na internet após a publicação do novo vídeo. Algumas pessoas disseram que ela teria se vendido.
— Não é bem dessa forma que as coisas funcionaram. Eu quis ir porque fui responsável por reivindicar. Fui nessa posição, de olhar no olho deles e cobrar o que tem que ser cobrado. — desabafa Júlia, que não recebeu valores em troca para os vídeos. — Essas pessoas que vão diretamente às autoridades, como tive a oportunidade de fazer, têm que levar isso de uma forma mais clara para a população. Estou passando para pessoas pobres, que precisam e que passam da mesma situação que eu.
Dois postos do Jaé são transferidos de endereço às vésperas da transição da bilhetagem do Rio; veja quais
Júlia Couto, a influencer que virou a 'rainha da reclamação' do Jaé — Foto: Ana Branco / Agência O Globo
Chateada com as críticas, Júlia diz que chega a "bater boca" com alguns internautas, porque acha ser "injusto". Com uma "realidade tão complicada", a estudante afirma que tem "dificuldade de lidar com inverdades" sobre ela. Nascida em Nova Iguaçu, é na cidade de Mesquita, ambas na Baixada Fluminense, que a influenciadora identifica suas raízes. Além de ter morado num barraco no município, é lá onde vive a sua avó numa casa sem pia, de quem quer mudar a realidade. A jovem usuária do Jaé ouviu do prefeito que "tem que se lançar na política, tem que virar vereadora”, o que nunca passou pela sua cabeça, tampouco ser jornalista.
Júlia Couto tem esperança de conseguir mudar sua realidade e a da avó a partir da internet, ganhando dinheiro com os seus vídeos, no futuro. Há quase três anos, a estudante de Pedagogia mora de favor na casa da sua melhor amiga, decisão tomada após um homem que havia abusado dela na infância ter retornado para a família, o que causou impactos profundos psicológicos na jovem.
Source: O Globo